domingo, março 07, 2010

Aprofundando

Postado por Renata F.C às domingo, março 07, 2010


Num salão de Paris
a linda moça de olhar gris,
toma café.
Moça feliz.

Mas a moça não sabe, por quem é,
que há um mar azul, antes da sua xícara de café;
e que há um navio longo antes do mar azul...
e que antes do navio longo há uma terra do sul;
e antes da terra um porto, em contínuo vai e vem,
com guindastes na boca do Trem
e botando letreiros nas costas do mar...
E antes do porto um trem madrugador
sobe-desce da serra a gritar, sem parar,
nas carretilhas que zunem de dor...
e antes da serra está o relógio da estação...
Tudo ofegante como um coração
que está sempre chegando, e palpitando assim.
E antes dessa estação se estende o cafezal.
E antes do cafezal está o homem, por fim,
que derrubou sozinho a floresta brutal..
O homem sujo de terra, o lavrador
que dorme rico, a plantação branca de flor,
e acorda pobre no outro dia (não faz mal)
com a geada negra que queimou o cafezal.
A riqueza é uma noiva, que fazer?
que promete e que falta sem querer...
chega a vestir-se assim, enfeitada flor
na noite branca que é o seu véu nupcial
mas vem o sol, queima-lhe o véu,
e a conduz loucamente para o céu
arrancando-a das mãos do lavrador.

Cadê o sertão daqui?
lavrador derrubou.
Quedê o lavrador?
está plantando café.
Quedê o café?
Moça bebeu.
Mas a moça onde está?
Está em Paris.
Moça feliz.

[Cassiano Ricardo – Martim Cererê]

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